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O reencontro

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O primeiro olhar após o momento da separação. No dia seguinte, ou após um ano, quando nossas almas se virem novamente, a verdade será dita sem palavras. Foi o fim de tudo ou o melhor estava por vir? Por enquanto, é o estômago que vive as sensações do antes. A boca seca e o coração acelerado, prestes a ter um ataque. Por fora, as aparências tentam ocultar os sentimentos. Mas basta um único olhar para denunciar as mentiras de uma vida inteira.

O reencontro II

Ele a evitou. Procurou esquecê-la enquanto a distância favorecia. Não escreveu cartas ou respondeu e-mails. Ela fez de tudo para vê-lo novamente. Deixou a segurança do seu lar para encontrá-lo a milhas e milhas de distância. Queria senti-lo, nem que fosse a última vez. Agora o momento aguardado estava perto. Sem fronteiras para impedir um abraço ou um olhar mais revelador. Ele quer dizer que não. Nega o que sente, mas está ansioso para ouvir novamente a voz daquela que nada disse e tudo se fez entender. Ela não espera, faz acontecer.

Arrumou as malas como se estivesse se preparando para ir à guerra. Dar tudo de si, inclusive a própria vida, em seu nome. Fé. Era isso que a impulsionava. Acreditava que ia ser feliz, mesmo contra todas as previsões e julgamentos. Pegou uma muda de roupas, se encheu de esperança e foi. Deixou para trás o trabalho, um casamento confortável, a estabilidade de uma família. Resolveu começar do zero, sem saber se conseguiria dar o primeiro passo. Agora iria em busca de si mesma. Era dona do seu corpo e dominava – ou achava que era possível – seus sentimentos. Só não contava com o inesperado. Ao largar sua casa, o caminho não teria mais volta. Foi egoísta. Não pensou em quem ficou: marido, filhos, parentes, amigos. Quantos olhares de reprovação recebeu… Agora é seguir mesmo sem querer. Sabia que tinha deixado alguma coisa no passado. Não sabia como iria ser recebida. Era exatamente esse mistério que a fascinava.

No avião, quando já não dominava seus pés, pensou em desistir. Mas a próxima vez que pisasse em terra firme seria o momento do reencontro. Conhecia tão bem a si própria que montou um plano para evitar fugas. Era demasiado tarde para voltar. Após um breve telefonema, dado dias antes, marcou de vê-lo no próprio aeroporto. Agora achou que fez tudo errado. Não era vaidosa em excesso, mas também não queria que ele a visse depois de quase 24 horas de viagem. Cara de sono, roupa amassada… Será que isso contava? Seus pensamentos já não tinham a força positiva que a habitava quando arrumava as malas. A dúvida era a única certeza que tinha agora.

O reencontro III

Enquanto se concentrava para vestir o agasalho e entender o que as pessoas diziam, sentiu o calor da mão no seu ombro. Leve, porém firme. Um toque que dispensou palavras. O olhar profundo e o riso nervoso. Inevitável disfarçar a saudade que os machucou durante 365 dias. Por todos os poros, o corpo dele desejava o dela e o dela, nada mais queria do que se entregar.

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* Texto escrito originalmente há 7 anos. Parcialmente editado. Sem melhorias aparentes.
** Música que embala o conto é de Thiago Pethit. Difícil de escolher, mas fácil de sentir ❤

Carta de desapego

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Sentou sozinho na praça, já esvaziada pelo adiantar das horas. E também pelo frio, ampliado pelo vento, que fazia pequeninos redemoinhos com as folhas recém-abandonadas da copa das árvores; anúncio da chegada do outono. Faziam barulho e riscavam o chão de cimento, como numa carta de despedida. Como aquela carta de despedida, a qual prefere chamar de carta de desapego. Já tinha lido e relido cada linha, cada palavra, com todas suas vírgulas e pontos, tentando decifrar os reais motivos da partida. O pedaço de papel encontrava-se agora amassado, transformado em bolinha, que queimava a mão direita, enquanto a esquerda tentava amparar algumas lágrimas teimosas. Enxugava rapidamente a face, para esconder a humilhação. Como se alguém, além dos pombos encorujados na estátua do poeta esquecido, estivesse ali para flagrar sua dor.

Foi se acalmando aos poucos, acompanhando com os olhos o vai e vem do balanço solitário no parquinho infantil ao lado. Do crepúsculo vespertino ao nascer da Lua cheia. Naquele breve intervalo entre o dia se firmar noite veio o estalo: estamos, todos nós, condenados a uma existência de perdas. Impotentes, ensaiamos tentativas vãs de controlar o que não podemos. Como a bactéria resistente a antibióticos que mata em 72 horas aquele a quem acreditou um dia ser super-herói. Relembrou todo sofrimento ao ver o corpo inerte e despido do pai na mesa de alumínio do necrotério. Achou que nunca iria se estabelecer novamente. Mas, len-ta-men-te, a vida vai mostrando novos caminhos e você acaba deixando-se ir. Se a gente parar para pensar um pouco mais… isso também é uma forma de desapego. Mais cedo ou mais tarde, sempre nos livramos das emoções negativas. E nos libertamos.

Algumas separações, quando vêm acompanhadas de decepção, no entanto, são mais difíceis de superar. Porque minam a confiança e povoam de interrogações o cotidiano das relações. Até hoje não conseguiu engolir o fim daquela amizade, por exemplo. Passados os anos, nem se lembrava direito o que tinha provocado o desentendimento. Cumprimentos polidos – bom dia, boa tarde, boa noite – agora substituíam os abraços afetuosos. E como fazem falta aqueles abraços! Em dias como hoje, era tudo o que precisava. Calor humano. Evaporado pela ausência de diálogos francos. Aprendemos a nos calar para não magoar e, logo em seguida, estamos nos calando para agradar o outro. Sem perceber, vamos construindo relacionamentos frágeis e fugazes. Que se quebram e se vão como essas folhas secas ao vento. Silencio. Silêncio. Às vezes, é melhor estar só. E, às vezes, é tormento. Rimas sem pretensão não são poesia.

Sacudiu a cabeça como se pudesse com aquele movimento se afastar dos pensamentos. Estava exausto. Como se não bastasse aquela carta, tinha enfrentado um dia cheio de problemas no trabalho. Muita energia desperdiçada em projetos e pessoas que, sinceramente, não valem a pena. O que a gente faz (ou deixa de fazer) em troca de um salário no fim do mês e da falsa sensação de estabilidade que o contracheque traz? Nem o cafezinho expresso a R$0,20 compensa. Se, pelo menos, fumasse… garantiria desculpas e algumas horas a menos de convivência forçada com lideranças que não lideram e subalternos que não lhe respeitam. O pior é você olhar no espelho e, ainda sem querer, enxergar em si mesmo a trágica, cíclica e irônica metamorfose laboral. De tantas frustrações, ideias sem proveito, criatividade sufocada… vamos desistindo e perdendo o envolvimento. E, logo, somos para alguém o que mais odiamos no outro.

Verdades como estas não podem ser ditas em voz alta. Mas, se repetidas algumas vezes na mente, acabam por desvendar o mistério. É preciso cultuar o desapego. Não de tudo ou de todos. Mas daquilo e principalmente de quem não nos faz bem. Suspirou fundo como se tivesse feito uma grande descoberta e se levantou do banco, um homem completamente diferente daquele do início da história. Entregou-me a bola de papel, deu boa noite e já ia saindo, quando voltou e me abraçou forte. Mal sabia ele que era tudo o que este pobre gari precisava no momento. O destino da carta foi o lixo e o do homem, ainda será escrito.

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* Nos dias frios, Jack White aquece! Love Is Blindness é rock-alerta contra cegueira

Eu te dedico

musicas

Pronto. Esta foi a última caixa da mudança. Agora todas encontram-se amontoadas na sala de estar. No breve intervalo para um descanso antes de começar a montar o novo lar, abro uma garrafa de vinho – tinto seco, claro! – e ligo o notebook para ouvir uma boa música e tornar a tarefa da arrumação um pouco menos penosa.  Dou uma rápida navegada pelos meus álbuns preferidos e seleciono os grandes sucessos de The Smiths. Gosto de ouvir a banda britânica em dias mais frios e solitários, como hoje. Antes mesmo que Morrissey soltasse sua voz inconfundível no refrão “Take me out tonight / Oh, take anywhere, I don’t care, I don’t care, I don’t care / Just driving in your car / I never never want to go home / Because I haven’t got one, oh lord / No I haven’t got one” o vizinho ou a vizinha do apartamento ao lado resolve me dar as boas-vindas abafando o meu som – e minha paz – com Roberto Carlos em alto volume. Até gosto de algumas canções do Rei, mas definitivamente não era este o clima que gostaria de sentir no primeiro dia de divorciada. “Como vai você? Eu preciso saber da sua vida“. Não mesmo! Contrariada, embora resignada, desligo o aparelho e resolvo seguir com The Smiths no celular, com fone de ouvido.

Não sei dizer exatamente quanto tempo levei para arrumar tudo, mas sei que parei quando acabaram os vinhos e a bateria do celular. Foi quando percebi que o ambiente estava silencioso outra vez. Aproveitei para deitar ali mesmo, no colchão largado na sala, e só acordei no outro dia de manhã, meio no susto, com os acordes de Beethoven (Piano Concerto No 5 in E. Flat Major). Alguém deve estar de sacanagem comigo, né? Fecho os olhos, conto até dez, inspirando e expirando lentamente e, desta vez, decido não me irritar. Então… vamos lá, começar o dia com Beethoven! Pensando bem… até que foi uma boa escolha musical de quem está do outro lado da parede e, graças a ele (a), não perdi a hora para levantar.  Em quase 20 minutos de concerto, preparei meu café da manhã, tomei banho e, pela primeira vez após 10 anos de um casamento sufocante, me senti livre outra vez. Saio para o trabalho confiante e solto um “vielen dank” (muito obrigado em alemão) em direção à janela do vizinho (a). Pode ser loucura da minha cabeça, mas tive a impressão de ouvir um aumento sutil no volume da música, como se ele (a) estivesse dizendo “de nada”. Deve ser uma pessoa culta e experiente, entre 50 e 60 anos, ou talvez 70… Ai, adoro idosos! Tenho um sorriso estampado no rosto e pensamentos aleatórios passeando pela minha cabeça. Eu e minhas divagações inúteis!

Foi com surpresa, portanto, que me deparei com os vidros do apartamento literalmente vibrando ao som de System of a Down quando voltei para casa: “Blast off! It’s party time/ And we don’t live in a fascist nation / Blast off! It’s party time /And where the fuck are you?”. Meu sobrinho Pedro escuta isso; até já o levei para um show no Rock in Rio. Deve ser o filho adolescente do meu nobre vizinho (a), só pode… Antes mesmo de abrir a porta já sentia uma leve dor de cabeça. O barulho das chaves no momento do intervalo de uma canção para outra deve ter denunciado minha presença. E o ruído cessou quase que automaticamente. Que gentil! Para retribuir a delicadeza, coloco A Banda de Joseph Tourton para tocar. Música de qualidade feita por jovens pernambucanos, amigos de Pedrinho. Rock instrumental no final de tarde cai bem melhor, concorda? E parece ter agradado porque escutamos todo o CD. Digo escutamos porque o vizinho (a) não interferiu mais. E, confesso, gosto de pensar que fiz alguma amizade por aqui.

A verdade é que, com o tempo, acabamos estabelecendo uma forma bem peculiar de comunicação. Demorou um pouquinho – acho que um ou dois meses, no máximo – para aprendermos a decifrar o gosto musical e/ou o estado emocional de cada um. Todos os dias colocávamos música um para o outro. Normalmente, tentávamos manter o estilo estabelecido por quem primeiro ligava o som e ficávamos variando os volumes, canções e artistas diferentes. Eu lhe apresentei Bruce Springsteen e ele (a) me fez relembrar o quanto Ramones era fantástico. Um dia acordei com uma vontade imensa de ouvir samba de raiz. Só pensei no baiano Batatinha, que fazia poesia com uma caixinha de fósforo. “É proibido sonhar / Então me deixe o direito de sambar / É proibido sonhar/ Então me deixe o direito de sambar“. E ele (a) me respondeu com Paulinho (da Viola): “Ame / Seja como for / Sem medo de sofrer/ Pintou desilusão/ Não tenha medo não/ O tempo poderá lhe dizer / Que tudo/ Traz alguma dor/ E o bem de revelar/ Que tal felicidade/ Sempre tão fugaz / A gente tem que conquistar“. Mesmo sem termos trocado uma palavra sequer ou visto a cara um do outro, posso dizer que meu vizinho (a) me compreendia melhor do que qualquer outra pessoa. Acho que já estava na hora de a gente se conhecer pessoalmente, mas no íntimo tinha receio de que algo mudasse em nossa especial relação. Melhor deixar quieto, dizia para mim mesma sempre que esta vontade aparecia. Certa vez, cheguei a frequentar minha cozinha e fazer um bolo – o que é muito raro – e já estava com a mão preparada para bater na porta do meu parceiro (a) musical, quando a razão gritou outra vez: Melhor deixar quieto. Obedecia sempre.

Mas hoje me permiti fantasiar sobre sua aparência. Foi depois que vi um rapaz – na verdade, um jovem senhor, acho que tinha 40 anos, sou péssima em estimar a idade das pessoas – no elevador. Carregava uma sacola de verduras e cantarolava alguma coisa quando entrei no cubículo de metal. Trocamos olhares de soslaio, sorrisos polidos, e só. O constrangimento no ar não permitiu mais nenhuma reação da minha parte – e, pelo jeito, da parte dele também. Minha mãe teria ficado com vergonha de mim por não ter dado um simples e educado boa noite. Ao invés disso, enfiei a mão na bolsa e peguei o fone de ouvidos para fingir desinteresse com o que estivesse tocando na playlist do ipod. Oito andares no elevador duraram uma eternidade. Saí antes dele, sem olhar para trás. Não sei dizer se ele desceu no meu andar ou seguiu. Se era um morador do prédio ou um visitante. Se era realmente meu vizinho ou fruto da minha imaginação. Apenas quando entrei em casa pude respirar normalmente. Busquei auxílio nos meus CDs de MPB. Só Chico Buarque para acalmar meu coração: “Não se afobe, não / Que nada é pra já / O amor não tem pressa / Ele pode esperar em silêncio…“.  E booom! Um estouro vindo lá de fora e uma completa escuridão aqui dentro.

Sem energia elétrica, sem vela para acender, celular descarregado… abri a porta na tentativa de deixar alguma luz natural entrar e pude perceber uma claridade vinda da porta entreaberta do apartamento ao lado. Ao me aproximar reconheço aquela voz que cantava baixinho “Se eu pudesse por um dia / Esse amor essa alegria/ Eu te juro te daria/ Se pudesse esse amor todo dia / Chega perto/ Vem sem medo/ Chega mais meu coração/ Vem ouvir esse segredo/ Escondido num choro-canção“. Ao me ver de pé ao seu lado, ele se apressa para dizer: É Tom. Jobim, eu sei. Sim… quer dizer… Não, o meu nome é Tom. Sério?! Prazer, Elis.

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* Dedicado ao amigo-irmão Mário Sérgio Barros, que compartilhou comigo vários momentos regados a cerveja e boa música (de preferência, dos anos 80) e também o princípio desta história. Pra você: We are the world

Dia de temporal

chuva

Trovões e relâmpagos não me provocam medo. Não como antes, na infância. É da chuva que cai grossa e intermitente das nuvens cinzentas que guardo os piores pesadelos – sejam imaginários ou reais. Dias como hoje só reforçam o temor que vem do céu. Castigo certo para quem teima em morar perto de rios e canais desta maldita cidade anfíbia. Acordei ainda de madrugada com as vozes de vizinhos conversando na rua misturadas ao barulho metálico do temporal que caía lá fora. É água, viu?! Vai alagar! A maré está cheia! É melhor suspender os móveis! São quase sempre as mesmas frases que antecedem as enchentes. Já enfrentei tantas – inclusive a histórica de 1975 quando ainda era criança – que quase perdi as contas, mas nunca o medo. Este persiste e cresce a cada alerta meteorológico.

A temperatura cai nos termômetros e o frio na barriga, aumenta. A verdade é que a gente passa o inverno todo vivendo com o cu na mão. Alguns, mais precavidos e/ou neuróticos, como o meu avô, se antecipam e já deixam os ambientes da casa preparados para o banho de água suja, vermes e lama. Tijolos espalhados em pontos estratégicos, roupas e utensílios domésticos encaixotados, à espera apenas do sinal do começo do fim: o rio transbordou! Lento e cruelmente, o líquido barrento e caudaloso vai invadindo as ruas; passa pelas galerias entupidas de lixo, falta de educação e descaso público, e sobe as calçadas, deixando toda comunidade hipnotizada pelo sentimento compartilhado de impotência. Estamos, todos nós ribeirinhos, rendidos. Não há mais o que fazer.

Ignorando as preces coletivas, a água fétida adentra as residências, ocupando os espaços por metros cúbicos. O resto é só lamento e desolação. Cabe a cada família calcular o saldo da destruição. Desta vez, geladeira, fogão e televisor ficaram submersos. Documentos e álbuns de fotografia perdidos na imundície com o pouco que sobrou de cidadania e boas recordações. De nada valeram os esforços para tentar salvar os bens. Não temos o que comer, vestir, nem onde dormir. É como ouvir ecos do passado: meu Deus, acabou-se tudo. Com o infeliz complemento: outra vez…  Por piedade divina ou por capricho diabólico, a chuva resolve dar uma trégua no exato momento quando o desespero começa a dominar o indivíduo. Sob olhares estupefatos, a água vai, finalmente, baixando. E a agonia só não é maior do que a crosta de quase um palmo de lama que insiste em permanecer onde antes era o nosso lar.

Mas é preciso engolir o choro e aproveitar os raios de sol para a missão vã mais difícil do dia: tentar limpar a casa sem contar com um pingo de água limpa nas torneiras. E sem energia elétrica. Apesar do caos, abandonar o barco agora é impensável. Não podemos deixar o caminho livre para a ação de vândalos e saqueadores. Sim, porque sempre há quem consiga tirar proveito do sofrimento alheio. Nem que seja para contar uma triste história.

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* Dedicado aos recifenses que amanheceram hoje embaixo d’água
** O tema de retomada do blog não era exatamente este, mas não consegui desviar o pensamento deste assunto
*** A linda ilustração do novo cabeçalho é assinada pelo designer e amigo Guilherme Castro ❤
**** A música que “ilustra” musicalmente o post se chama Valtari e é da banda islandesa de post-rock Sigur Rós (Sid)


Ela começou a falar outra vez. Tento me concentrar no que sai daquela bocarra. Um, dois, três minutos, no máximo, e pronto. Já não estou ali. Por mais que tente, meu pensamento me rouba para dentro de mim. E, então, me desligo para o mundo exterior. Será isso o que os monges tibetanos chamam de meditação? Duvido. Silêncio é tudo o que não escuto quando estou em companhia de mim mesma. Palavras soltas, gritos, suspiros, música. É um mundo muito agitado este que habita minha cabeça repleta de fios brancos e conexões – impossíveis de mensurar. E também é involuntário. Existe simplesmente e, quando quer, se manifesta. Agora mesmo faço um esforço enorme para manter a linha de raciocínio, mas já me rendo a uma lembrança que chega lá do fundo do baú. De onde vem? Por que me toma? Qual o propósito deste chamado?

Vejo-me criança, brincando com areia no jardim de casa. Cavava pequenos buracos com os dedos em busca de baratinhas pretas. Colocava-as na palma da mão e as examinava com meus olhos pequeninos, duas lupas potentes e brilhosas. E aí, em pouco tempo de contemplação, acontecia o apagão da consciência. Quando dava por mim, o inseto já não estava lá. Tinha escapado, retornado para a areia ou será que eu o havia engolido? Balanço a cabeça em movimento de negação para afastar o asqueroso pensamento. E ele, desta vez, atende o meu comando. Ainda bem. Estou de volta. Só não sei para onde. Sim… agora sim… reconheço este lugar. É minha cozinha atual. A mesa está posta. No prato, algumas frutas cortadas em pedaços e um copo de suco, que pela cor amarela-clara julgo ser de abacaxi. Novo apagão. Sou chamada a atenção pelo meu marido, que brinca estalando os dedos e me pede para passar a manteiga. Sorrimos.

No meio familiar sou conhecida por ser assim… desligada. Pais, irmãos, filhos e alguns amigos mais próximos aprenderam a tolerar o meu jeito e hoje até acham graça.  Mas nos estudos e, em seguida, no trabalho o nível de compreensão era menor, é bem menor. Não demorei para procurar ajuda profissional – de consultas a psicólogo e otorrinolaringologista a sessões de yoga e até centro espírita. Foi constatado que eu não sofria de distúrbio de atenção, minha audição era perfeita e se não conseguia me concentrar na meditação, a coceira habitual que contagiava o corpo era só mais uma desculpa que o cérebro inventava para escapar do entediante mantra “Ôm namô, namah Shivaya, namô, namah Shivaya”. Sim, alguns goles de água purificada e recebimento de passes me ajudaram a dormir melhor. Mas, no final das contas, nada foi descoberto. Nada mudou. Minha mente desperta continuava a dar saltos temporais. Cada vez maiores.

Já perdi a conta do número de vezes que passei do ponto de descida do ônibus, das páginas em branco viradas do livro que nada me acrescentava ou dos diálogos sem sentido que apareciam e desapareciam na tela gigante do cinema. O único avanço, adquirido com o passar dos anos, foi a cara blasé de pseudo-intelectual que aprendi a fazer para disfarçar os meus sumiços constantes. Olhos semiserrados, boca entreaberta, cabeça levemente inclinada em direção ao interlocutor da vez. Quem me vê de fora jura que estou dando toda atenção do mundo, degustando cada palavra proferida. Pura caridade moral. Por dentro eu me divirto na solidão ruidosa do ser.

E, quando por obrigação profissional ou afetiva, tenho que recordar do que foi dito por outrem, a tecnologia esta aí para me salvar. Ando com um gravador de bolso e o aciono quando percebo que estou prestes a escapar e, em seguida, deixo-me ir como quem escorrega em um tobogã. Depois é só ouvir novamente. E repetir quantas vezes for necessário até que o conteúdo seja, finalmente, assimilado. É trabalhoso… eu sei. Mas tem funcionado assim. A volta à realidade é um rebobinar de fita K-7, só que em velocidade supersônica. É o momento mais difícil para manter o disfarce. Um milésimo de segundo a mais na piscada do olho e estou de volta. Sim… havia esquecido daquela boca enorme. Há pessoas que, ao contrário de mim, falam sem parar, talvez porque não suportem a companhia de si mesmos. Nada contra. Cada um cria seus próprios mecanismos para viver. Ela, finalmente, respira um pouco e me olha impaciente como quem espera uma resposta.

– Sim, entendi tudo perfeitamente. Mas envia um resumo do que você quer por e-mail, para deixar tudo registrado, ok?

E me afasto outra vez deixando a impressão de ser uma pessoa extremamente educada e organizada. O que não deixa de ser verdade.

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* A imagem que ilustra o texto chama-se Garrafas flutuantes e foi gentilmente cedida pelo mineiro Marcel Caram. Para quem gosta de arte surrealista, uma visita ao Flickr dele é indicadíssima.

** Knife, da banda norte-americana de folk rock Grizzly Bear, é a trilha sonora do conto. Sugiro ler o texto ouvindo a música.

Caminhava apressado, com passos firmes e largos em cima de saltos finos. Tinha um andar gracioso e, ao mesmo tempo, obstinado. Foi o que, no primeiro momento, me chamou atenção. Sei que a maioria das pessoas olhava para ele por outros motivos. Talvez pela blusa de seda amarela que ostentava o peitoral sem volumes ou pelos brincos de topázio que roçavam os ombros, morenos e másculos. Nunca tinha visto um homem tão homem quanto aquele, embora estivesse vestido de mulher. A cada pensamento vago que dedicava ao desconhecido crossdresser ele se aproximava e, quando dei por mim, já havia passado ao meu lado, deixando um aroma adocicado de anis misturado com suor.

Até hoje não sei dizer por que, mas tive o ímpeto de seguir aquele rapaz que me causou estranhamento e uma incrível e surpreendente atração física. Acho que o persegui por uns dois quilômetros, em transe absoluto. Até que ele parou, se virou e lançou-me a pergunta que, naquele instante, nem eu mesma soube responder: – O que você quer? Tartamudeei algumas palavras sem sentido, em meio a sorrisos amarelados.  Ao perceber que estava desconcertada, ele também sorriu, deixando entrever os dentes um pouco manchados de baton. O primeiro diálogo aconteceu na frente de uma sorveteria e, como não conseguia falar nada coerente, apontei para o interior da casa, numa tentativa de o convidar para ficar. E ele consentiu.

Para quebrar o gelo, pedimos dois casquinhos simples, de uma bola apenas, – o dele sabor tangerina e o meu, tapioca. Senti o corpo esquentar ao vê-lo chupando o sorvete e tenho certeza que enrubesci. Ele sorria, desta vez com os olhos, grandes e verdes. Ficamos assim por mais algum tempo até que a conversa fluiu como água represada que ganhou a liberdade. Falei do encantamento que ele me provocava e, emocionado, ele contou sua história. Cris, abreviação para Cristiano, morava em outro estado e aproveitava a distância de casa para se despir das convenções impostas pela sociedade. Disse que demorou a admitir para si mesmo que não se encaixava no vestuário e comportamento tradicionalmente masculinos.

– Cada vez que colocava uma camisa de botão ou uma calça social me sentia extremamente desconfortável, como se fosse outra pessoa, sabe?

– E quando você começou a se vestir como mulher?

– Quando criança, aos sete, oito anos, experimentava escondido as roupas das minhas irmãs. Mas só voltei a usar uma saia novamente numa festa de Carnaval, há quatro anos. Foi uma descoberta libertadora e, ao mesmo tempo, apavorante.

– E o que você fez? Perguntava sem piscar.

– A princípio, nada. Já era casado na época e tenho certeza  que minha esposa jamais iria entender. O que? Não me olhe com essa cara. Sim, eu gosto de mulher. Talvez a questão seja exatamente esta. Hoje me identifico mais com o gênero feminino do que com o masculino.

Cris disse que começou a frequentar grupos de crossdressers, onde compartilhava com outros homens os prazeres e agruras de uma vida dupla, na qual – fez questão de explicar – ninguém quer fazer cirurgia para trocar o sexo nem implantar silicone.

– É verdade que muitos são homossexuais, mas é um erro achar que isso é uma regra. Tenho amigos que, assim como eu, são heteros e não dispensam um rímel. Soa esquisito para você?

– Sim, quer dizer… não mais. Você fica muito bonito assim. Por que ainda se esconde?

– Falta coragem. Nem todo mundo é como você, Paula. Já passei por situações de preconceito e até de violência física. Vai chegar o dia, eu sei… está mais perto do que nunca, disse baixando os olhos e, em seguida, completou segurando minhas mãos: – Gostei muito de te conhecer!

Depois de tantas confidências, trocamos telefones e prometemos manter contato. A despedida veio com um abraço apertado e um beijo no canto da boca. Ele ajeitou os cabelos com as mãos, deu uma piscadela e foi. Acompanhei-o com os olhos até vê-lo sumir na esquina. E senti a maravilhosa sensação que é amar e respeitar o outro como ele é. Depois segui o meu caminho, que já não era mais  o mesmo porque também havia deixado de ser a mesma pessoa. Era outra e agora me reconhecia como a verdadeira.

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* À Laerte, por sua coragem inspiradora.
** A banda The Kills tem um clipe fantástico sobre crossdresser. Vale conferir “Baby Says”


Quando você não tem mais nada na vida a não ser lembranças, recordar o passado é o mais próximo que se pode chegar da felicidade. Você pode, por exemplo, se imaginar na beira do mar, simulando todas as sensações de quem está realmente na beira do mar. Basta fechar os olhos e se entregar à viagem da mente. É quase possível sentir o cheiro forte e misturado de sargaço e sal,  a brisa acariciando de leve o rosto e os pés sendo molhados continuamente pelo trem de ondas. Quase, repito. A verdade é que nada chega perto do que de fato é estar lá. E assim também é com alguém que a gente ama e que já não está mais do nosso lado. Pensar Nela só alivia a saudade e me faz esquecer por alguns míseros instantes  da dor que sinto quando respiro.

É por isso que uma vez por semana venho a este lugar. Sento no balanço que antes parecia tão preenchido e acolhedor  e fico horas a fio me perdendo em recordações. Revivo diálogos,  os mínimos gestos e expressões…. e acho até que crio cenas que ficaram incompletas na nossa história.  Às vezes, confesso, derramo algumas lágrimas. Tentativa vãs de esvaziar aquele sentimento aquoso, que ocupa todos os espaços do meu corpo. E, por vezes, como por delírio ou desespero, imagino que Ela também pensa em mim. E que talvez também tenha um canto especial para se entregar ao nosso passado.  Quem sabe o mesmo lugar, no mesmo instante.  Quem sabe um dia.

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E assim acaba a história do monstro. Ou começa // Foto: Mário Mélo